Screen Shot: Hyper Lander 2 Classic
|
A Laurence Durrel
Os tempos estão definitivamente
dificeis,
Laurence a Laurence
todos os poetas desaparecem
na curvatura
de um circulo de mortes.
E como se fossem de pó
desaparecem,
ora montados em motocicletas
como arcanjos
ora levantados ás nuvens
em ondas cor de rosa
onde os cigarros voam,
perdidas pelo espaço.
Pedra a pedra,
todas as casas poéticas caem
cortadas pelo meio
onde empreiteiros
de visões com cifrões espreitam;
e em lugar das palavras
onde habitavam gnomos,
jovens casais promitentes
prometer-se-ão acordos mútuos
em notas de crédito
onde não conseguirá subsistir
a música.
E longínquos, os poetas,
aqueles que Lawrence a Lawrence
escolheram aquelas estradas
de onde nem sempre se volta
hão-de acenar com as mãos
sagradas
pela queimadura genuína das letras
E ficarão para nós,
( esta geração de habitantes
de centros comerciais
e de pequenas lojas de “ fait divers “)
como Deus ficou
para Moisés;Sarças ardentes, Puríssimas
chamas de fogo
Altíssimas labaredas de espirito
a indicar-nos caminhos
que não mais veremos
perdidos como estamos
na mudança de tempos.
E as teias de aranha,
os grafitis que cercam
os muros da tua casa
como serpentes verdes, enrolam-se
nas paredes como plantas
que fossem outrora vivas.
E a tua casa
onde todos os silêncios remexem,
sussurra
como se uma nota ainda
de cor a inspirasse
e as tuas palavras
habitassem ainda
a sua cercadura de névoa.
Porém,ao cume do entardecer
contempla-a a morte
e o norte desfaz-se
de encontro as paredes altas de uma montanha
onde detritos enormes
apagam os doces
perfumes subtis do Mareotis
-em certas partes do mundo,
a vida conduz-nos sempre á morte. -
Quanto ao teu nome, meu amigo
foi a única coisa varrida
daquele canto onde
Lawrence a Lawrence
desaparecem a pouco e pouco
os poetas
montados nas suas melancólicas
motocicletas
de luz.
E no Tejo viaja-se de barco
como suponho, se viaja ainda
de barco no Mareotis;
as pessoas passeiam-se a beira do rio
exactamente
como se passeiam lá,
e também como na Baixa, onde a luz
se mistura com a água
existem poetas que murmuram
palavras encantadas
na esperança do tal milagre
da transmutação dos metais em ouro.
Existem poetas em todas as cidades
existem poetas cristãos
e poetas árabes
e até mesmo para espanto
de certas criaturas
poetas negros e judeus.
Porque a poesia é contra todos
e não tem cores especiais
como dizia o outro.
E ali no Tejo, ao porto
como lá, no tal Mareotis
onde a luz toca nas areias
para lhes dar os brilhos diamantinos,
existem os tais seres
que como os meninos
brincam e jogam
eu juro ! –
com as palavras que dão a
cor a toda a realidade.
E se o Pessoa e o Cesário
se tivessem encontrado com o Kavafis
que tal não teria sido
o jogo á bola
com as palavras a saltitarem
de cabeça para cabeça
até ao extraordinário golo vaporoso
nas redes de Deus,
e lá,
naquela que é para mim
a longínqua Alexandria
ali,naquela que é hoje para mim
a tão longínqua Lisboa,
á beira
dos seus rios
posso imaginá-los, aos poetas
a passearam devagar pelas ruelas
iluminadas pelo som regular
do que sonham
e consola-me neste isolamento
o poder de imaginar
que neste mesmo instante
se viaja de barco no Tejo
como imagino
se viaja de barco no Mareotis
e que,
Lawrence a Lawrence
apesar destes modernos tempos
da reanimação da construção civil
ficará
apesar de tudo
a Presença Real da tua vida
nos livros
que escreveste,
para dizer adeus.
|